
Acredite ou não nos perigos da brincadeira do copo, o tabuleiro Ouija e mesmo sua versão nacional, geralmente improvisada com pedaços de papel, envolve o ato de soletrar palavras a partir do alfabeto disposto de forma gráfica, seja circular, seja em sua forma comercial “Ouija”:

“Jogo do copo” causa perturbações e leva ao suicídio
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Principalmente no Brasil, a “brincadeira do copo”, caneta, compasso e tanto mais tem uma fama sinistra com histórias macabras das terríveis consequências do que teria ocorrido com a prima do cunhado de um conhecido. O mais curioso é que a origem desta brincadeira é mesmo um jogo infantil promovido e vendido há pouco mais de um século nos EUA, o tabuleiro “Ouija”, explorando um efeito da fisiologia humana bem determinado e nada sobrenatural. Mas estamos nos adiantando.
VIDE O VERSO
A idéia moderna de falar com o além teve início em 1848, com o caso das irmãs Fox, inventoras do “telégrafo espiritual”. Espíritos produziam estalos misteriosos soletrando cada palavra, letra por letra. Embora elas tenham escrito livros inteiros com este método, era algo muito tedioso e com o tempo mesmo elas – assim como uma avalanche de médiuns – passaram a se valer de formas mais convenientes de comunicação com espíritos.
Um dos meios criados para falar com o além foram as “mesas girantes”. Um grupo de pessoas se sentava ao redor de uma mesa (quanto mais leve melhor) apoiando seus dedos sobre ela. Feitas as invocações espirituais iniciais, a mesa logo começava a balançar e girar batendo com suas pernas no chão; as pancadas eram transformadas em sinais: uma pancada para “sim”, duas para “talvez” e três para “não”. Não muito melhor que o telégrafo espiritual, mas o “faça você mesmo” era uma receita para o sucesso.
Surgiram muitas variantes, até que por volta de 1886 o “tabuleiro falante” foi inventado por espiritualistas. Pouco depois a invenção foi comercializada como o tabuleiro “Ouija”. Confira abaixo o tabuleiro vendido em 1891 pela Companhia de Brinquedos Kennard, que começou tudo:

Isso mesmo. Tabuleiros Ouija foram vendidos como brinquedos desde sua invenção há mais de um século. Confira o Museu dos Tabuleiros Falantes para uma galeria de imagens, incluindo este abaixo dos anos 1940, que parece uma toalha de papel do McDonald’s.

E é quase tão inocente: em seu verso estava um tabuleiro para jogar xadrez, damas e até paciência, para quando você e seus amigos enjoassem de falar com os espíritos.
Nenhum desses tabuleiros vinha com instruções alertando que se o espírito não “saísse” devidamente, continuaria presente para possuir os pobres inocentes brincando com o além. Tampouco houve recall em massa destes terríveis portais para dimensões desconhecidas. Eles continuam sendo vendidos.
Em 1967, em plena contracultura e Nova Era, a companhia de brinquedos Parker Brothers vendeu mais de dois milhões de tabuleiros Ouija, superando seu jogo de tabuleiro mais popular: o “Banco Imobiliário”.
Não apenas isso, tabuleiros Ouija foram usados sem maiores problemas por médiuns conhecidos para supostamente contatar o além desde o início. Em 1912, por exemplo, foi com um tabuleiro Ouija de brinquedo exatamente como os mostrados acima que a americana Pearl Curran disse ter contatado do além a nada maligna “Patience Worth”, hoje famosa entre espíritas.
Supostas conversas com espíritos através da brincadeira do copo foram mesmo responsáveis por um prêmio Pulitzer: o livro Divine Comedies de 1976, de James Merrill, não só descreve suas experiência e diálogos através do tabuleiro e um copo, sem histórias macabras, como é um livro de poemas!

A história é clara. Tabuleiros falantes, exatamente como a brincadeira do copo, são vendidos há mais de um século como brinquedos inocentes. Mesmo supostos médiuns famosos o usaram sem maiores problemas. Foram até a tranqüila capa de uma popular revista semanal americana, em maio de 1920, com uma ilustração típica do badalado artista Norman Rockwell.
E ambas podem ser curiosas, pelo menos para um artista.
“Eu aprecio tabuleiros Ouija como belas declarações do alfabeto”, escreveu-me o artista norte-americano Monte Thrasher no ano passado. Desde então trocamos ideias sobre o tema e Thrasher partilhou algumas de suas ideias e conceitos fascinantes, como o projeto “Oráculo” de reprojetar o tabuleiro falante.
“Ocorreu-me que o tabuleiro Ouija padrão é desajeitado e exige muito trabalho. Por exemplo, usa-se constantemente a letra A, mas ela está em um extremo do tabuleiro. Por que não agrupar todas as vogais no centro para facilitar o acesso? E depois da letra Q sempre vem um U, logo por que não os deixar juntos, e assim por diante?”, perguntou o artista.
“Isto me levou ao estudo da estatística da criptografia. O T é a consoante mais comum em inglês, e ela se agrupa geralmente com o E, assim devem ser deixados lado a lado. Pensei em tornar as letras mais comuns maiores e as mais raras, menores. Terminei com uma imagem curiosa, algo como aqueles cartazes de letras no consultório de um oftalmologista, mas totalmente maluco, uma mistura aparentemente aleatória de letras. Aqui está um rascunho inicial:”

“Ao final a versão com que acabei do Oráculo Tabuleiro não era lá grande coisa. Percebi que minha abordagem estatística à linguagem requeria não uma abordagem gráfica como a destes diagramas, mas uma estatística, uma dispersão de pequenas letras por todo o campo; muitos Es, menos Ts, etc., seguindo o conjunto bem conhecido ETAOINSHRDLU, das letras mais às menos comuns em inglês”.
“Visualmente monótono, mas oracularmente produtivo. É verdade, suas ‘mensagens’ estavam cheias de erros de ortografia e palavras sem nexo, mas qualquer participantes usando o tabuleiro pode aceitar ou descartar quaisquer partes da mensagem que desejar, já que são todas igualmente relevantes. Ou, como um clarividente disse, os Mortos também cometem erros de ortografia”, brincou.
Esta foi apenas a primeira mensagem em que Thrasher comentou o tema. De layouts de teclados a nuvens de palavras, das irmãs Fox ao iPad e além, exploraremos em uma breve série de textos a idéia de reprojetar o tabuleiro Ouija – e, de quebra, sua versão nacional com a brincadeira do copo.
A frase não possui significado, e era composta por operadores de linotipos que simplesmente apertavam as duas primeiras colunas verticais em seus teclados, de forma análoga à qual hoje digitamos “qwerty” ou “asdfg”, com a diferença de que os linotipos antigos possuíam teclas dispostas de acordo com sua frequência.
Isto é, “etaoin / shrdlu” são as doze letras mais comumente usadas na língua inglesa.

Esse teclado de linotipo já não guarda certa semelhança com as sugestões de Monte Thrasher para uma nova brincadeira do copo? Mas deixemos isto de lado por enquanto, para ir direto à ideia de também dispor as letras com tamanhos diferentes, de acordo com sua frequência. Pois é provável que você já tenha visto algo similar navegando pela rede.

Acima, uma nuvem de palavras, um Wordle do texto “Penso, Logo Desisto”, onde as palavras mais usadas aparecem maiores. Como padrão, as palavras mais comuns como artigos, “o”, “a”, “um”, etc., foram removidas para que a imagem represente as palavras mais relevantes no texto, e funciona formidavelmente. Mesmo sem ler o texto, basta uma olhada na nuvem de palavras para perceber que ele lida com a consciência, o cérebro, memória, decisão.
Caso as palavras mais comuns não sejam removidas, no entanto, obtemos algo assim:

“Que”? Bem, pelo visto é a palavra mais repetida no texto, e conquanto o Wordle acima não represente visualmente de forma muito eficaz do que o texto trata, ele seria muito útil caso se desejasse “ditar” apontando com um copo, caneta ou compasso tudo que foi escrito. Isto porque na nuvem acima todas as palavras do texto original estão contidas, e estão arranjadas de forma que as palavras mais repetidas surgem maiores. Um “espírito” acharia muito conveniente que artigos como “o” ou “a” estejam bem destacados em letras garrafais.
O mesmo pode ser feito, claro, com textos em inglês. Abaixo vemos o Wordle da versão em inglês do texto, “Mind Under Matter”, sem que os termos mais comuns, como o artigo “the”, fossem removidos:

Note a similaridade, incluindo o gigantesco “the”, com o rascunho original criado por um artista talentoso como Monte Thrasher, que entre outras obras criou o alfabeto romulano da série Jornada nas Estrelas. É incrível que esta disposição gráfica tenha sido criada automaticamente por um algoritmo computadorizado. Mas é necessária certa sugestão artística para explorar seu inusitado uso reverso como tabuleiro para comunicação com “espíritos”, no que é a primeira idéia exposta aqui para uma nova brincadeira do copo.
Pode-se, por exemplo, criar uma nuvem de palavras no Wordle da Bíblia, ou melhor ainda, do Livro dos Espíritos, uma vez que Allan Kardec teria conduzido suas entrevistas com espíritos confiando também em instrumentos não muito diferentes do tabuleiro Ouija e brincadeiras do copo. Abaixo, um wordle do primeiro capítulo do Livro dos Espíritos:

Uma hipotética entidade espiritual que precisasse indicar novamente o texto, palavra por palavra, poderia considerar essa nuvem de palavras muito útil. Imagine a situação, ou mesmo se pode praticá-la: um grupo de participantes em torno de uma versão impressa dessa nuvem de palavras, com uma caneta, copo, compasso, esperando que apontem palavra por palavra, reproduzindo o texto original.
Participantes mais dados a emoção podem criar nuvens de palavras a partir de textos de livros de terror e esperar que se formem mensagens ainda mais assustadoras que o comum.
Uma nova brincadeira supersticiosa, gerada automaticamente por um algoritmo computacional em um servidor nos EUA, provocando novas emoções, novas histórias, novas lendas. Uma brincadeira do copo versão 2.0.

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